segunda-feira, 30 de maio de 2011

Fides




Não te resignes antes de perder
definitiva e irrevogavelmente
a batalha em que lutas. Luta erguido
e sem contar as hostes inimigas.
Embora te restem só resquícios de esperança,
não te rendas! A sorte
gosta de acumular os impossíveis
para os vencer em conjunto, sempre,
com o fatal e misterioso golpe
de sua clava de Hércules.

Sabes acaso se aquele instante
em que, já fatigado, desesperas,
não seria o momento em que a definitiva
realização de teu ideal sucederia?

Torce o fado mais tenaz
aquele que alimenta uma fé indestrutível;
O destino só é vulnerável à fé
e resistir não pode.

A fé outorga o divino privilégio
da casualidade, aquele que a possui
em grau heróico.

Quando as sombras e os espectros e os diabretes cheguem
a inspirar-te pavor, fecha os olhos,
abraça-te à tua fé e arremete!

Verás como os monstros mais horríveis
quando de tua arremetida se desvanecem!

Tudo o que se opõe aos desígnios puros
do homem, é irreal e tem somente
uma vida ilusória,
que nosso medo e nossa febre aviva.

Deus quis em sua bondade que os obstáculos
nos servissem para mais afiar as nossas armas;
quis que o impossível
existisse para que o vencêssemos,
como a barreira existe
para que sobre ela salte o cavalo!

Engana, pois, a quanto no caminho
teu impulso pretende destruir!

Não cedas nem aos homens nem aos anjos!

(Com um anjo lutou Jacó, inerme, por toda uma noite,
... e o anjo o bendisse, comprazendo-se
com a suprema audácia do mancebo,
a quem chamou Israel, porque era forte contar Deus...)

Ama bastante, o que ama embota
até mesmo os aguilhões da morte!

Que a tua fé trace um círculo de fogo
entre a tua alma e os monstros que a cercam,
e se demasiado é o teu pavor ante os fantasmas
que vês, fecha os olhos, e arremete!



Amado Nervo

segunda-feira, 2 de maio de 2011


Purificação


Extirpar o que não une e jamais pertence
Não ceder à indiferença, ausência atroz
Seguir como quem sabe, vê, pressente
O fado puro, reluzente e veloz

Vencer, limar a aresta pontiaguda
Sublimar com altivez a intensa dor
Lapidar a pedra, até a mais bruta
No labirinto do próprio interior

Não cultivar ódios, torpes rancores
Plantar nobres virtudes com bravura
Caminhando longe ou em arredores

Forjar o amor puro vindo das alturas.
Ver profundo a vida, em plena certeza:
Tudo reflete a Divina Beleza!



Marluce Claudia

quarta-feira, 23 de março de 2011

Maias


Havia um povo que se dizia ter
Avançada técnica e sabedoria
Em Matemática, Escrita, Astronomia...
Mas há histórias que contam mais.
Entre pirâmides escalonadas,
Ocorreu esta que será contada:

“Há uma tenda no meio do campo,
Dentro dela um sagrado artesão.
Ele capta as ideias do céu,
Ele plasma as formas no chão.

Por fora não se vê movimento,
Não se ouve o seu labutar...
Apesar de aparente inércia,
O objeto, ele está a moldar.

Não se deve ver o artesão:
Não é ele que ali labora.
Ele entrega ao Sol suas mãos,
o Sol que a tudo elabora...

Quando finda a forma plasmada,
É o fogo que queima o véu.
Eis a forma que surge da terra,
Espelhando a ideia do céu!”

André Vasconcelos

terça-feira, 15 de março de 2011

Roma



Não sou romano se estou só em Roma,
Trago em meu peito o amor ao Império,
Com meu respeito, procuro o mistério,
O sou em glória, em vontade e em honra.

Conto a história do Império que nasce
Da terra que cresce do sangue do Império:

No berço de gêmeos a semente
Nas águas de Vênus
Flutuavam não menos
Que os amos de um império potente

Perdidos à margem da Terra
Sós na natureza
Imbuídos de pureza
Acolhidos pelo seio de uma fera

Loba de longos caninos
Cravou dentes na história
Levou filhos à glória
Inspirou novos hinos

Rômulo e Remo sob lupinos auspícios
Unidos e em contraparte
Filhos do pai Marte
Ergueram em Palatino os edíficios

Um futuro império do mundo
Com homens de moral
Com Uno Ideal
Um novo elo do mundo

Deixo uma língua ao futuro distante,
A inspiração de poetas e músicos,
P'ra eternizar os momentos de júbilos,
Impulsionar os guerreiros e amantes.
P'ra tornar imortal, fugaz instante
Que começamos a erguer nossos muros.

Enila Freitas e Igor Alcântara

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Amar


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Herói


Tu que em meio às trevas
Ofereces tua luz.
Tu que não te entregas
Ao que ilude, ao que seduz.

Tu que ao agir geras laços
Que nos ensinam a amar.
Tu que com os teus braços
Fazes a roda girar.

Tu que mesmo ferido
Não te deixas abater.
Tu que vences o inimigo
Que se encontra em teu ser.

Tu que marchas à frente
E assim conduzes os teus.
Tu que durante os combates
Sempre te lembras de Deus.

Tu que enfrentas a morte
E com tua espada a destróis,
És da raça dos fortes,
Dos valentes, dos heróis.
Gerson Miranda

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A DANÇA E A ALMA


A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento
da humana graça natural.

No solo não, no éter pairamos
nele amaríamos ficar.
A dança - não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.

Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado.

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser
por sobre o mistério das fábulas.


Carlos Drummond de Andrade